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sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Ibovespa despenca 3,35% e dólar dispara 4,14% com teto de gastos ameaçado e Mantega na transição

 Pessimismo generalizado com política fiscal do novo governo derruba a bolsa brasileira. Em Wall Street, o dia foi de festa com inflação em baixa: S&P 500 fechou com +5,53%, a maior alta diária desde 2020

                    Um conto de duas bolsas.

Enquanto Wall Street fez a festa hoje, com dados da inflação finalmente surpreendendo e vindo abaixo do esperado, o clima na Faria Lima não poderia ser mais diferente. Por aqui, só amargura: o Ibovespa despencou mais de 3%, voltando para o patamar dos 109 mil pontos. O dólar foi a 5,4149, um salto de mais de 4% – o maior desde março de 2020, quando a pandemia chegou.
 
O mau humor tem nome e sobrenome: risco fiscal. Se o mercado passou a primeira semana pós-eleição em relativa paz com o novo governo eleito, o caos voltou a reinar agora na Faria Lima com mais detalhes sobre a provável política econômica adotada pela gestão petista.
 
Lula injetou um boa dose de amargura no mercado em suas falas na manhã desta quinta-feira. Não houve exatamente uma grande novidade em seu discurso, que foi uma repetição do que já havia sido dito na campanha: um governo voltado para os pobres, responsabilidade social etc.
 
O problema é que o petista deu a entender – ou pelo menos a Faria Lima assim o entendeu – que poderá abrir mão da responsabilidade fiscal para cumprir suas promessas.
 
“Por que as pessoas são levadas a sofrerem por conta de garantir a tal da estabilidade fiscal nesse país? Por que que toda hora as pessoas falam que é preciso cortar gastos? É preciso fazer superávits? É preciso fazer tetos de gasto? Por que as mesmas pessoas que discutem com seriedade o teto de gasto não discutem a questão social do país?”, questionou Lula.
 
Não foram só as palavras que assustaram o mercado, é claro. A ideia concreta de retirar as despesas do Bolsa Família permanentemente do teto de gastos – algo que parece ser o plano A da nova gestão para conseguir pagar o programa – foi extremamente mal recebida e entendida como um primeiro passo para o descontrole das contas públicas. Mesmo que o auxílio seja uma medida extremamente essencial, a Faria Lima quer que os números sejam planejados e claros, e teme que a retirada da despesa do cálculo signifique que o novo governo simplesmente passará a gastar mais e mais sem respeitar as regras de controle.
 
Nesse ponto, a bolsa já despencava no começo da tarde quando veio uma notícia que piorou ainda mais os humores. Os nomes da equipe de transição foram divulgados, e um em especial se destaca: Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda nos governos Dilma e Lula. Ele entregará a equipe que cuidará da parte de Planejamento, Orçamento e Gestão – justamente a mais sensível para a pauta do dia.
 
Se o medo fiscal já era grande, com a confirmação do nome nada amado pela Faria Lima ele foi às máximas. A nomeação do ex-ministro parece confirmar a tendência de uma política econômica mais voltada para a heterodoxia, à la governos Dilma, do que para um projeto mais voltado para o centro, à la Lula I, como sinalizado na campanha com a formação da “frente ampla”. A presença do ortodoxo Pérsio Árida no processo de transição nem de perto acalma os temores.
 
A bolsa reagiu desabando 3,35%. O dólar disparou 4,14%.
 
O pessimismo do mercado foi tão protagonista no noticiário do dia que até Lula se pronunciou algumas horas depois do seu discurso. Disse que o mercado é sensível e que “fica nervoso à toa”, e que não reagia assim durante os quatro anos de Bolsonaro. Ele reforçou esse posicionamento no seu Twitter.
 
O petista já tentou fazer as pazes com a Faria Lima nas últimas semanas. A todo momento relembra seus dois mandatos para reforçar que ele tem sim responsabilidade fiscal. Também adota um discurso conciliador e afirma apostar na frente ampla.
 
Mas, por outro lado, continua atacando teto de gastos e reforçando um discurso de responsabilidade fiscal vs responsabilidade social. E suas medidas práticas – como a nomeação de Mantega – falam mais alto do que suas palavras. Até porque elas lembram mais o governo Dilma do que seus próprios mandatos.
 
Para o petista reconquistar o mercado, vai ser preciso de muito mais. A relação já começou com o pé esquerdo.
 
O pessimismo foi tão extraordinário que nem um otimismo igualmente extraordinário em Wall Street segurou nossa bolsa (ainda que tenha limitado as perdas). Em Nova York, os índices acionários tiveram a maior alta diária desde 2020 – tudo porque a novela da inflação finalmente teve um plot twist positivo.
 
Xibom Bombom
 
Hoje foi dia de dobradinha de dados de inflação para outubro: IPCA no Brasil e CPI (Índice de Preços ao Consumidor) nos Estados Unidos. Teve notícia boa nos EUA, e ruim aqui por nossas bandas.
 
Por aqui, o indicador oficial de inflação subiu 0,59% no mês passado. Era esperado que os preços voltassem a subir, passado o efeito das medidas eleitoreiras de Bolsonaro. Entre julho e setembro, os preços acumularam deflação de 1,33%, cortesia do corte de impostos e congelamento nos preços dos combustíveis.
 
Só que a medida, como se sabia, teria vida curta. E a inflação subiu mais que o esperado no mês passado – economistas apostavam em alta de 0,49%. Esse foi um dado que também ajudou a amargar o humor do mercado pela manhã, mas acabou virando nota de rodapé num pregão dominado pelo risco fiscal.
 
Enquanto isso, nos EUA os economistas também falharam em cravar a inflação oficial de outubro. Mas, por lá, eles comemoraram o erro. O CPI registrou alta de 0,4% em outubro – um sinal de que a inflação está começando a desacelerar, depois de atingir máximas de quase 40 anos nos últimos meses. Em 12 meses até outubro, o índice registra alta de 7,7% – ou seja, está mais alta do que no Brasil.
 
Só que foi uma notícia extremamente positiva. O índice S&P 500, das 500 maiores empresas negociadas na bolsa de Nova York, fechou em alta 5,53%. A Nasdaq, que concentra ações de tecnologia, saltou ainda mais: 7,35%. Foram as maiores variações diárias para ambos desde 2020. E marcam uma mudança importante na longa novela da inflação americana.
 
O lance é que há pelo menos três meses o mercado vinha apostando em uma queda mais acentuada nos preços, em reação a alta de juros promovida pelo Fed. E eles não baixavam nunca. Agora, pela primeira vez, parece que está funcionando.
 
Todas as principais categorias registraram alta no mês, mas se mantiveram estáveis em relação a setembro. O que mais pesou foi a moradia, categoria que mede o preço dos aluguéis e hipotecas, e representa quase ¼ da cesta de produtos do CPI. Em outubro, ela subiu 0,8%, e acumula alta de 6,9% em 12 meses. A energia subiu 1,8%, e a alimentação 0,6%. Por outro lado, categorias menores como serviços hospitalares, veículos usados e vestuário registraram queda.
 
E o motivo da festa de Wall Street? É que investidores começam a vislumbrar um cenário em que os juros não precisem subir tanto para conter a inflação. E se os juros não avançam tanto, talvez seja possível evitar uma recessão – o efeito colateral mais indesejado da alta de juros.
 
Aí investidores aproveitaram para limpar um pouco do pessimismo do terreno. Para isso continuar, vai depender da inflação daqui para frente. Cenas dos próximos capítulos.
 
Até amanhã.
 
Maiores altas
CSN Mineração (CMIN3): 2,77%
Suzano (SUZB3): 2,29%
Vale (VALE3): 1,91%
Embraer (EMBR3): 0,75%
Klabin (KBLN11): 0,71%
 
Maiores baixas
Azul (AZUL4): -17,83%
Yduqs (YDUQ3): -13,92%
Hapvida (HAPV3): -13,67%
CVC Brasil (CVCB3): -13,33%
Carrefour (CRFB3): -13,07%
 
Ibovespa: -3,35% aos 109.775 pontos
 
Em Nova York
 
S&P 500: 5,53%, aos 3.955 pontos
Nasdaq: 7,35%, aos 11.114 pontos
Dow Jones: 3,69%, 33.712 pontos
 
Dólar: 4,14%, a R$ 5,3966
 
Petróleo
 
Brent: 1,10%, a US$ 93,67
WTI: 0,74%, a US$ 86,47
 
Minério de ferro: -1,39%, a US$ 93,37 por tonelada na bolsa de Dalian (China).

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