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segunda-feira, 6 de março de 2023

Às vésperas do Dia Internacional das Mulheres, Nísia Trindade, primeira Ministra da Saúde do Brasil, fala sobre desafios da gestão, rotina em Brasília e vida familiar

 

Em sua primeira grande entrevista depois da posse, Ministra, que também foi a primeira a ocupar o cargo máximo da Fiocruz, revela ter ficado muito emocionada no dia em que recebeu convite para o cargo: 'Não hesitei'

Por Marcia Disitzer
O Globo

A primeira ministra da Saúde da História do Brasil, Nísia Trindade
 Diego Bressani/produção executiva Kariny Grativol

Foi em um típico domingo de sol carioca — com a temperatura beirando os 35°C —, em breve passagem pelo Rio, que Nísia Trindade, a primeira mulher na História do Brasil a assumir o Ministério da Saúde (criado em 1953), conseguiu abrir espaço na agenda para esta entrevista. Nascida e criada no Catete, a ministra, de 65 anos, recebeu a Revista ELA no seu apartamento, em Copacabana, onde mora. Ali, concedeu quase duas horas do seu bem mais precioso dos últimos meses: o tempo. “Desde novembro, ao entrar no grupo de transição do governo Lula, suspendi minhas atividades físicas, interrompi a análise. Na verdade, parei com tudo. Em Brasília, chego ao Ministério às 8h30m e saio às 21h. A rotina é quebrada constantemente, há muita coisa a ser feita”, conta.

Nísia Trindade — Foto: Diego Bressani

Dona de uma fala pausada, em que as palavras são criteriosamente selecionadas, de um jeito sereno, e ao mesmo tempo firme, Nísia tem uma trajetória de pioneirismo. Graduada em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), fez mestrado em Ciências Políticas e doutorado em Sociologia. Pesquisadora premiada, apaixonou-se pela área de saúde na década de 1980 e construiu a carreira na Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz): em 1998, tornou-se diretora da Casa de Oswaldo Cruz, unidade voltada para pesquisa e memória em ciências sociais, história e saúde, participou da concepção do Museu da Vida e também atuou como vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação. Em 2017, Nísia foi eleita presidente da centenária fundação, a primeira mulher a ocupar o cargo máximo. Durante a gestão, enfrentou o drama da pandemia da Covid-19, o maior colapso sanitário e hospitalar da História do Brasil. No dia 2 de janeiro deste ano, a convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tomou posse na Saúde.

Nísia Trindade — Foto: Diego Bressani

Na semana em que se comemora o Dia Internacional das Mulheres e em sua primeira grande entrevista desde que assumiu o Ministério, Nísia enaltece figuras femininas que a antecederam, discorre sobre os imensos desafios de sua gestão e também fala dos filhos, Márcio e André, do único neto, Bento, e do companheiro, o historiador Antonio Herculano Lopes. Confira os melhores trechos.

A senhora é a primeira mulher a chefiar a pasta da saúde desde sua criação, há 70 anos. Foi também a primeira a presidir a Fiocruz. A que credita esses pioneirismos?

No caso do Ministério da Saúde, credito à sensibilidade do presidente Lula, que quis ter um número maior de mulheres nos ministérios, componho um grupo de 11 ministras. Acredito que o meu papel na Fiocruz durante a pandemia da Covid-19 também tenha sido determinante. Porém, olho para esse pioneirismo com preocupação, porque mostra a dificuldade de nós, mulheres, atingirmos cargos de direção. Precisamos ter formas eficazes de furar esse teto. A visão do governo atual significa uma guinada.

Erroneamente, espera-se uma postura masculina para as mulheres que ocupam espaços de poder. a senhora transmite serenidade. Como lida com isso?

Isso ficou muito claro para mim quando assumi a presidência da Fiocruz. É uma coisa incorporada. Participei de maneira ativa do movimento feminista no final dos anos 1970 e uma de suas maiores expressões, a escritora Rosiska Darcy de Oliveira, falava desse estereótipo, de que a autoridade está associada a um padrão autoritário. Isso não deveria ser um requisito desse exercício se pensarmos em termos de escuta, diálogo e tomada de decisões.

Quais mulheres foram referência para a senhora?

Minha avó materna, Marcília, foi uma mulher muito forte. Era dona de casa e não entendia o fato de eu gostar tanto de literatura. Mas, ao mesmo tempo, tínhamos grande admiração uma pela outra. Minha mãe estudou até o ginásio, mas sempre trabalhou: fez curso de modelista e teve ateliê de chapéus e grinaldas antes de eu nascer. Depois, tornou-se servidora pública. E tive uma professora, no ensino médio, com formação em Sociologia, que me influenciou bastante.

Onde estava quando recebeu o convite para o Ministério? Pensou em não aceitar?

Estava em um congresso em Salvador, e a emoção foi imensa. O convite foi feito pelo próprio presidente Lula. Tem um impacto muito grande na vida familiar, mas não hesitei. Entendo que é um papel que tenho a capacidade de exercer e também a convicção de que essa é a hora da reconstrução. Nós, que passamos por reveses tão grandes desde o impeachment da presidenta Dilma, uma vez chamados, devemos dar a nossa contribuição. Foi por meio de políticas sociais que me formei, é uma retribuição. E claro que me sinto em condições para isso.

Nísia Trindade: a carioca tem dois filhos e um neto 
Foto: Diego Bressani

Em 2020, a senhora contou que, nos meses mais duros de pandemia, relacionou-se à distância com os filhos, o neto e o companheiro. por quanto tempo? como é a relação com a família hoje?

Tenho dois filhos, André, de 41 anos, Márcio, de 39, e um neto, Bento, de 6. Naquele começo, por estar muito exposta ao vírus, fiquei separada deles e do meu companheiro por três meses. Depois desse tempo, não que o risco tenha diminuído, mas, como me testava semanalmente, fomos manejando. Agora, conto com a compreensão de todos. Eu e meu companheiro estamos juntos há três anos e não moramos na mesma casa, o que facilita porque já temos essa experiência. Mas é muito diferente, não só a quantidade de tempo, mas como ele é utilizado, fico muito absorvida mesmo. A gente tem o hábito de se falar todos os dias, porque para ter vínculo é necessário manter contato. Ele é uma pessoa consciente e ficou feliz em me ver nessa posição. A gente se alterna: quando dá, venho para o Rio; quando ele pode, viaja para Brasília.

Dá para namorar sendo ministra?

Muito menos. Porém, o trabalho intenso na vida pública não tira a nossa dimensão humana e as nossas necessidades. Eu me relaciono com um historiador que tem uma vida acadêmica ativa. Ambos temos vidas ativas, mas com intensidades diferentes. Do contrário, ninguém aguentaria (risos).

Trabalha quantas horas por dia? Ainda pratica ioga?

Normalmente, chego ao ministério às 8h30m e saio às 21h, mas a rotina é quebrada constantemente. Troquei a ioga pelo pilates, mas parei em novembro. Pretendo voltar neste mês.

Qual é a sua visão em relação à pandemia?

É importante estarmos atentos a questões sociais e ambientais. Não se pode dissociar saúde da questão ambiental. Sobre as máscaras, recomenda-se o uso em aglomerações, mas não há mais obrigatoriedade. O mundo está suscetível a novos vírus. Além do monitoramento, fortaleceremos a vacinação, a ciência, a tecnologia e a proteção social, em caso de necessidade de isolamentos.

No Brasil, Uma mulher morre a cada dois dias por causa de abortos clandestinos. As principais vítimas são mulheres pretas. O que podemos fazer para mudar este cenário? Acha possível avançar nesse tema com a bancada evangélica?

Esa é uma discussão que precisa envolver toda sociedade por causa da delicadeza do tema. Nos casos em que existe a permissão ao aborto no Brasil (risco à vida da gestante, violência sexual e anencefalia fetal), faremos com que o SUS garanta a lei e o acolhimento. Nosso objetivo é discutir o tema com dados e garantir o que a lei já estabelece.

Como era a relação com o Ministério da Saúde do governo anterior?

Não bati de frente por estar consciente da minha missão. Também nunca deixei de me posicionar.

E a relação com as outras ministras, como é?

Ótima. Existe solidariedade entre nós. Ainda não saímos juntas porque, até agora, não tive tempo para retomar minha vida social. Em Brasília, só consegui jantar na casa de amigos e caminhar pelas alamedas verdes, que são lindas.

A senhora chegou a sugerir que fizéssemos esta entrevista com a Ministra da Mulher, Aparecida Gonçalves, por causa do dia 8 de março.

Foi uma sugestão natural devido ao tema.

Sofreu da falada síndrome de impostora? Faz análise?

Não, nunca sofri. Faço análise desde 1992, entre idas e vindas. Mas também precisei parar em novembro do ano passado.

Como avalia a atuação da primeira-dama, Janja?

Ela tem perfil ativo e trajetória de participação em movimentos sociais. Contribuirá não só para nós, Ministras, como para a agenda de Direitos Humanos. Já tivemos outras primeiras-damas com papel forte, como Dona Ruth Cardoso.

Acredita em Deus?

Não sigo nenhuma religião específica, mas acredito numa força. E tenho respeito à diversidade religiosa.

Como é a Nísia avó?

Sou atenta, carinhosa e adoro contar histórias. Não sou permissiva, mas, quando Bento vem, a casa fica uma bagunça (risos).

Qual é o grande legado que a primeira ministra mulher da Saúde do Brasil pretende deixar?

Espero que o princípio de integralidade do SUS possa ser efetivado e que nós tenhamos um sistema de saúde fortalecido. Não quero contribuir com a marca de um programa isolado, mas com essa visão integrada da saúde e da qualidade do acesso. Temos que trabalhar com a ideia de saúde de qualidade para todos.

Produção executiva: Kariny Grativol. Cabelo: Dora Ferreira (Jazz). Maquiagem: Hudson Mateus (Jazz). Assistente de fotografia: Daniela Anjos. Tratamento de imagem: Helena Colliny.

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