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quinta-feira, 5 de julho de 2018

Mãe e filho são baleados e mortos em rodoviária de Brasília

Pâmela Vieira tentava desesperadamente passar pelo cordão de isolamento improvisado pela polícia. Com oito meses de gravidez, levava as mãos à barriga e gritava aos prantos o nome do marido. Foi barrada por agentes da Polícia Civil. No chão sujo da Rodoviária do Entorno, na Esplanada dos Ministérios, Pâmela via o corpo baleado de Welington Rodrigues Santos da Silva, de 22 anos, coberto por um pano verde. Apenas o tênis à vista. A menos de dez metros dali, reconheceu ainda o corpo da mãe de Welington, Maria Célia Rodrigues dos Santos.
Pâmela gritava para que o marido se levantasse, tentava entrar na cena do crime para se aproximar do corpo. Um dos agentes da Polícia Civil, sem identificação, não hesitou em dizer a ela que “baixasse a bola” e que ficasse quieta até que os peritos fizessem seu trabalho no local. “Vai para trás, baixa a bola. Vamos parar com essa palhaçada. Senão, daqui a pouco vou ter que deter gente aqui.”
Próxima dali, no Hospital de Base de Brasília, a segunda filha de Maria Célia, a garota Kerolym Ketlen Moreira Rodrigues, de 19 anos, baleada no abdome, passava por uma cirurgia.
Quando Pâmela chegou, os corpos de Maria Célia e Welington Rodrigues já estavam no chão há mais de duas horas. A morte de ambos, porém, começou a ser desenhada uma semana antes.
Mãe e filho eram ambulantes na Rodoviária do Entorno de Brasília desde 2014, quando este anexo da rodoviária central do DF foi inaugurado. Ali, entre as fileiras dos ônibus imundos e de péssima qualidade que atendem Brasília, dividiam espaço com mais 1,4 mil ambulantes que, todos os dias, tentam vender de tudo na porta de entrada da capital federal.
Resultado da omissão dos governos federal e distrital, Maria Célia e Welington Rodrigues trabalhavam em situação completamente irregular, como todos os demais ambulantes da região. Para vender suas coisas, disputavam os melhores pontos da rodoviária. Na semana passada, essa disputa clandestina por espaço acabou numa confusão com outros dois ambulantes. Relatos dão conta de que os ambulantes quase se enfrentaram. O caso foi parar na polícia. Maria Célia e Welington Rodrigues registraram ocorrência na 5ª Delegacia de Polícia, na área central de Brasília, por lesão corporal e ameaça.
Os dois ambulantes, conforme relatos dos próprios agentes da Polícia Civil, chegaram a ficar algumas horas detidos, mas depois foram liberados. Nos dias seguintes, correu entre os ambulantes da rodoviária uma promessa de vingança.
“Isso aqui era uma tragédia anunciada. Todo mundo já sabia que havia uma vingança prometida, por causa dessa disputa de espaço. A própria polícia sabia disso”, diz Luiz Coutinho, presidente da Associação de Ambulantes do Distrito Federal (DF), instituição que tenta regularizar a situação dos trabalhadores informais.
Nesta quarta-feira, 4, por volta das 14h40, um homem se aproximou de ambos e sacou a arma. Luiz Coutinho estava na rodoviária no momento dos disparos. “Eu estava descendo a escada, quando ouvi quatro tiros. Todo mundo saiu correndo, houve pânico”, diz.
A família de Maria Célia e Welington Rodrigues vivia em Planaltina de Goiás. O rapaz deixa a esposa grávida de oito meses e mais uma filha, de dois anos.
A situação caótica do comércio clandestino que toma conta da rodoviária de Brasília não é nova. A menos de três quilômetros do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, impera o comércio informal, disputando as cerca de 200 mil pessoas que passam por ali diariamente.

Do Didi Galvão

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